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Rompendo as bolhas da polarização

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Autor Patricia Blanco Presidente do Instituto Palavra Aberta Sobre o autor

O ambiente tóxico gerado pela desinformação e pelo radicalismo inibe a liberdade de expressão

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📸:Jametlene Reskp|Unsplash

Sarampo, difteria, rubéola, poliomielite, caxumba e coqueluche. Erradicadas pelas campanhas de vacinação, essas e outras doenças ameaçam voltar em várias regiões do globo por causa dos movimentos antivacina que vivem de espalhar mentiras nas redes sociais e em aplicativos de mensagens. As mentiras compartilhadas aos borbotões por mal-intencionados e desavisados circulam como se fossem verdadeiras e ameaçam também o controle da pandemia de Covid-19.

Esse fenômeno de desinformação em cascata é resultado da radical polarização do debate público somado ao uso indevido das redes sociais e aplicativos de mensagens. Nesse processo deletério, há um emaranhado de interesses – muitos deles comerciais –, a equivocada confiança nos mais próximos em detrimento de fontes de credibilidade reconhecida, como os veículos jornalísticos e, claro, o desconhecimento. Tudo catalisado por crenças e paixões que acabam por substituir a realidade dos fatos.

O cenário é, infelizmente, muito favorável à disseminação de desinformação, ainda que o Brasil lidere o ranking dos povos mais preocupados do mundo com a propagação de informações falsas na internet – 82%, segundo o Digital News Report, do Instituto Reuters. Pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) revela que, na internet, as chamadas fake news se espalham 70% mais rápido do que as informações verdadeiras e têm o poder de alcançar muito mais pessoas.

Essa acelerada propagação está calcada em uma estrutura que começou a ser erguida no começo dos anos 2000, quando as redes sociais ganharam corpo. As transformações tecnológicas criaram novas formas de participação cidadã. Surgiram novos veículos de comunicação, novas vozes, blogs e novos formadores de opinião fora do circuito da imprensa tradicional.

Todo esse movimento transformou o sistema informacional, que deixou para trás o modelo no qual poucos falavam para muitos. Hoje, todos falam para todos. Viramos produtores e disseminadores de conteúdo. É como se o celular tivesse se transformado em uma emissora de TV, rádio ou em um jornal. Consumimos tudo na palma da mão, sem qualquer curadoria prévia.  

As mudanças trouxeram inúmeros benefícios, é verdade, mas também muitos desafios. Ocorre que no ambiente informacional pulverizado e poluído é mais difícil separar o que é uma informação de qualidade do que é fruto de erro ou de desinformação proposital. Essa nova realidade se mostrou fértil para o discurso manipulador da polarização, que inibe a discussão construtiva, a coesão social e a busca por consensos.

A desinformação passou a ser utilizada para derrubar a credibilidade de pessoas e de instituições, minando os pilares democráticos. Além disso, no ambiente polarizado, os extremos acabam por defender os mesmos retrocessos, usando os mesmos métodos para silenciar aqueles que pensam diferente com o objetivo de impor o pensamento único.

O ambiente tóxico gerado pela desinformação e pela prática do discurso de ódio inibe a pluralidade dos debates e a liberdade de expressão. Na prática, sem a garantia de diálogo construtivo e diante da virulência das bolhas sociais, pessoas até então dispostas a colaborar com o debate público decidem não participar para se preservarem, em uma atitude muito semelhante à autocensura. 

É hora de virar esse jogo, e a mudança começa com mais educação, tanto nos bancos escolares quanto fora deles. Esse é o objetivo do programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta, o EducaMídia, agora em uma nova etapa, que vai além da oferta de formação de educadores visando preparar os jovens para uma cultura em que a tecnologia interfere nas relações sociais, de aprendizado, de trabalho e de consumo. A partir do lançamento do EducaMídia 60+, passa também a atuar entre a população com mais idade, sobretudo os idosos, entre os quais a desinformação se espalha com grande facilidade e pode ter impacto ainda mais pernicioso.

Outra frente dá atenção especial à população vulnerável e sem acesso à educação formal e à informação qualificada, pois entendemos que a educação midiática é um direito de todo cidadão. Como tal, merece esforços sustentáveis, coletivos e diversos para que todos possam exercer a liberdade de expressão de forma plena, fortalecendo assim a democracia brasileira e rompendo com a bolha limitadora da polarização.   

Foto de Patricia Blanco

Patricia Blanco

Presidente do Instituto Palavra Aberta

Patricia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta, entidade que lidera o EducaMídia, programa de educação midiática com foco na formação de professores e produção de conteúdo sobre o tema.

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