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Teorias da conspiração ameaçam a ciência e a democracia

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Autor Mariana Mandelli Coordenadora de comunicação Sobre o autor

Pandemia expõe a força perniciosa desse gênero de desinformação

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coronavírus foi criado em um laboratório chinês como arma biológica para reduzir a população e as torres de 5G estão ajudando a espalhar a doença mundo afora. Além disso, a causa da pandemia que assola o planeta desde dezembro estaria diretamente relacionada com os projetos obscuros de Bill Gates, o fundador da Microsoft, que financia vacinas para essa e outras enfermidades com o objetivo de inserir microchips nas pessoas imunizadas.

A miscelânea de ideias do parágrafo anterior pode soar absurda, mas para muita gente essas frases fazem sentido. A chance de alguma delas ter aparecido na sua timeline ou no seu WhatsApp desde a chegada da Covid-19 no Brasil também não é pequena. Comumente chamadas de “fake news”, essas mensagens se adequam melhor a outro tipo de desinformação que ganhou uma dimensão maléfica com as redes sociais: as teorias conspiratórias.

A conceituação do que seria uma teoria da conspiração é variada e motiva pesquisas em diversas áreas do conhecimento. John Michael Carey, professor da Universidade de Dartmouth, uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos, estuda o tema há anos e definiu esse tipo de narrativa da seguinte maneira em entrevista ao jornal universitário da mesma instituição, em janeiro: “[…] é a crença de que existem forças invisíveis que não podemos identificar ou observar, mas que estão controlando as coisas e fazendo coisas ruins para nós”.

A fantasia de que existem grupos secretos tramando contra o bem comum não é nenhuma novidade, muito menos na internet, onde esse tipo de coisa sempre teve espaço, especialmente em páginas de curiosidades e bizarrices. O problema é que essa premissa passou a ser manipulada em larga escala nas redes sociais, criando bolhas de desinformação que usam mecanismos de monetização para crescerem e espalharem suas ideias baseadas em achismos, o que pode ser exemplificado com a dimensão que o discurso dos negacionistas climáticos e do movimento antivacina tomou.

Além disso, autoridades e líderes políticos, com a intenção de manipular a opinião pública, usufruem dessas narrativas neuróticas para reforçarem ideologias específicas com argumentos que, além de serem desonestos intelectualmente, simplificam ideias complexas em histórias de fácil apreensão – exemplos não faltam: “marxismo cultural” e o nazismo ser classificado como uma “filosofia de esquerda” são apenas alguns.

Existem pesquisas que tentam explorar justamente o que faz com que as pessoas acreditem nesse tipo de discurso. Segundo um estudo publicado em agosto de 2018 no European Journal of Social Psychology, que descreve o conspiracionismo com um “fenômeno psicológico social”, existem quatro aspectos que caracterizam a crença nessas ideias: a consequencialidade, uma vez que acreditar nessas teorias traz efeitos para a saúde e o bem-estar das pessoas; a universalidade, pois são encontradas em qualquer época da história humana e nas mais diferentes sociedades; a emoção, já que mitigam a racionalidade em prol de influenciar sentimentos; e a questão social, já que interferem nas relações entre grupos, culturas e nacionalidades.

Ou seja: as teorias da conspiração fornecem uma resposta rápida e lógica para problemas aparentemente inescrutáveis que muitas vezes dependem de longos processos de investigação e pesquisa –demora essa que contraria a ânsia geral por um diagnóstico que faça sentido e atenda a necessidades urgentes, como é justamente o caso da pandemia que vivenciamos. Essas narrativas fantasiosas também reforçam preconceitos estruturais e confirmam vieses –afinal, como mais uma vez o coronavírus nos mostra, é muito mais fácil vilanizar um país (a China, no caso) sobre o qual pouco sabemos do que admitir que não temos conhecimento suficiente sobre ele e sobre a doença.

Ao contrário das soluções simples que as teorias conspiratórias propõem para questões complexas, combater esse tipo de desinformação é bastante laborioso. Para além do exaustivo trabalho que checadores de informação do mundo inteiro fazem, é preciso também que as plataformas digitais combatam a disseminação desses conteúdos que violam as diretrizes das próprias empresas, como algumas já vêm fazendo.

Mas, ainda mais urgente do que essas duas providências citadas, é preciso educar o cidadão para que ele identifique e refute essas ideias mirabolantes, compreendendo que, mais do que narrativas envolventes, as teorias da conspiração são maléficas porque endossam discursos de ódio, colocam a saúde pública em risco, negam a ciência e enfraquecem a democracia. Dependemos de uma educação que incentive o pensamento crítico e científico para que os maniqueísmos que distorcem os fatos tenham cada vez menos espaço no debate público e, consequentemente, na vida em sociedade.

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Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

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