Imagem de carregamento
— Colunas e Artigos

Russofobia: quando a histeria das redes amplifica o preconceito

Foto de Mariana Mandelli
Autor Mariana Mandelli Coordenadora de comunicação Sobre o autor

Manifestações contra a guerra não podem ser confundida com discurso de ódio

Imagem de destaque do post

A notícia de que uma universidade italiana cancelou um curso sobre o escritor Fiódor Dostoiévski por conta do conflito entre Rússia e Ucrânia gerou indignação nas últimas semanas. A instituição voltou atrás após a repercussão negativa do caso o escritor russo, um dos mais emblemáticos da literatura europeia, morreu 141 anos antes de Vladimir Putin decidir invadir o território ucraniano.

O autor de “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov” também foi alvo em Florença, berço do Renascimento e uma das cidades mais importantes da Itália, onde o prefeito Dario Nardella relatou ter recebido pedidos para que uma estátua em homenagem ao russo fosse retirada.

Dostoiévski não é a única vítima da perseguição cultural à população russa que se estabeleceu desde o fim de fevereiro. Tchaikovsky, compositor russo morto em 1893, também tem sido vetado em concertos mundo afora, como aconteceu na Orquestra Filarmônica de Cardiff, País de Gales.

Os exemplos são incontáveis e parecem acompanhar as fortes sanções econômicas impostas à Rússia nos últimos dias, sob liderança dos Estados Unidos. Além da literatura e da música, artistas e delegações estão sendo boicotados em eventos célebres do mundo do cinema e em competições esportivas. No Brasil, restaurantes ensaiaram tirar o strogonoff do cardápio.

Tudo isso se dissemina ainda mais rapidamente nas redes sociais, onde todo mundo tem uma opinião sobre a guerra, baseada ou não em fatos e conhecimentos históricos, e onde uma infinidade de posts legítimos condena a postura violenta do governo russo, pedindo o cessar-fogo.

Mas é também nessas plataformas digitais que mensagens e memes preconceituosos contra a população russa povoam timelines. Memes, aliás, que são facilmente encontrados e gerados em sites especialmente dedicados a isso. Ao passo que tudo isso se mistura   informação, desinformação, protestos, sátira e afins , a internet ajuda a impulsionar aquilo que se chama de russofobia, estereotipando uma população e amplificando ódio contra ela. É preciso saber diferenciar um presidente de um povo, assim como distinguir o boicote a entidades ligadas ao governo russo de cidadãos sem relação com ele.

É importante destacar que o sentimento antirrusso não é algo novo muito pelo contrário. Segundo o dicionário Collins, a definição de russofobia é a seguinte, em tradução livre: “um ódio intenso e muitas vezes irracional pela Rússia, ou pela antiga União Soviética, seu sistema político etc.” Nas primeiras décadas do século XX, a propaganda política contra o país era comum na Europa, o que foi reforçado durante a ascensão do nazismo e, posteriormente, foi misturado ao anticomunismo durante a Guerra Fria, inclusive por parte da imprensa ocidental.

Num contexto hiperconectado de tensão geopolítica, as ofensas chegam também por inbox. Uma reportagem publicada no Washington Post neste mês descreveu a situação de jogadores russos da NHL, a liga de hóquei estadunidense, relatando que alguns deles estão recebendo ameaças de morte com xingamentos a seus filhos, ainda bebês.

Nos últimos dias, a agência de notícias Reuters divulgou que a Meta, empresa dona do Instagram e do Facebook, estaria cogitando liberar a publicação de postagens de ódio contra soldados, políticos e o povo russo em países do Leste Europeu. Por sua vez, a big tech afirmou ser “contra a russofobia” e “qualquer tipo de discriminação, assédio ou violência contra cidadãos russos”. 

Há quem chame esse movimento contra a cultura e a população russa de “cancelamento” do país, na tentativa de encaixar, no contexto de uma guerra, a prática de linchamento virtual e difamação de indivíduos que se espalhou pelas mídias sociais nos últimos anos. Mas é preciso atenção ao termo, já que ele pode esconder o que realmente acontece: intolerância e xenofobia. Ademais, é necessário considerar como essa ideia pode ser manipulada nos discursos de autoridades, já que o próprio Putin afirmou que o Ocidente está tentando “cancelar” a Rússia.


Conflitos geopolíticos raramente cabem em memes e tweets – muito menos naqueles que estigmatizam povos e culturas e incentivam uma visão maniqueísta do mundo e das tensões internacionais de forma geral. Num momento em que há uma disputa de narrativas e que as informações confiáveis são escassas, conteúdos e ações reducionistas, como apelar para o apagamento de Dostoiévski e da culinária russa, não só não é eficaz como pode ajudar a criar e disseminar estereótipos e preconceito.


A liberdade de expressão é um dos pilares de qualquer sociedade que se diga democrática e, portanto, deve ser um direito protegido a qualquer custo. Justamente por ser tão preciosa é que devemos pensar em como a utilizamos. Temos o direito e o dever de nos manifestarmos contra a barbárie, a tragédia e o genocídio, mas sem deixar de refletir sobre as formas com que fazemos isso e o que elas podem ocasionar, dentro e fora das timelines. 

 

*Artigo publicado na Folha de S. Paulo

Foto de Mariana Mandelli

Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

Voltar ao topo
FAÇA
PAR—
TE

Venha para nossa rede de educação midiática!
Fique por dentro das novidades

Receba gratuitamente nossa newsletter

Siga nossas redes sociais

Que tal usar nossa hashtag?

#educamidia

Utilizamos cookies essenciais para proporcionar uma melhor experiência. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de privacidade.

Política de privacidade