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Disciplinar sem excluir: eis o desafio da educação midiática

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Autor Bruno Ferreira Assessor pedagógico Sobre o autor

Proibição de celulares nas escolas tem apoio popular, mas a medida não pode restringir a inclusão digital dos estudantes

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A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro realizou uma consulta pública à população carioca sobre o uso de celulares na escola. Os resultados foram divulgados no dia 23 de janeiro: 83% das 10 mil pessoas respondentes concordaram em proibir os dispositivos no ambiente escolar. Apenas 6% dos participantes são contrários à medida e 11% são parcialmente favoráveis.

Isso fez com que o prefeito da cidade, Eduardo Paes (PSD), assinasse um decreto proibindo o uso do celular nas escolas da rede municipal na última sexta-feira, 2 de fevereiro. A medida se aplica não apenas ao interior das salas de aula, mas a qualquer espaço ou tempo escolar, entre a primeira e última aulas, incluindo corredores e recreio. O uso pedagógico do dispositivo é uma das exceções para o uso, desde que autorizado pelo docente.

A queixa dos professores sobre a dificuldade em fazer com que os estudantes se concentrem nas atividades pedagógicas propostas, com ou sem o uso do celular, é antiga. Com as plataformas digitais, sobretudo as redes sociais, o desafio parece ainda maior. Esses ambientes altamente sedutores contribuem para a dispersão de pessoas em qualquer idade, o que inclui crianças e adolescentes.

Dessa forma, a escolha pela proibição parece traduzir o desespero das redes de ensino frente ao desafio de disputar a atenção do aluno com os conteúdos audiovisuais divertidos e instantâneos nas redes sociais, que se estruturam na brevidade e no excesso informacional como estratégia para que as audiências se mantenham conectadas.

Se pensarmos que o distanciamento do dispositivo faz com que os estudantes reflitam melhor sobre suas condutas online, a proibição se justifica. De fato, é preciso haver medidas mais efetivas na redução de danos que a dispersão pelo uso excessivo do celular causa ao processo de ensino e aprendizagem e ao convívio na comunidade escolar. 

No entanto, essa proibição não pode ser um obstáculo à educação midiática dos estudantes. Em evento organizado pela Safernet e realizado nesta terça-feira, 6, para celebrar o Dia da Internet Segura no Brasil, muitos participantes destacaram a importância de preparar crianças e adolescentes para um uso seguro da internet, de modo que não sejam privados das oportunidades abertas pelas tecnologias digitais. 

Nesse contexto, Iain Drennan, diretor-executivo da WeProtect Global Alliance e um dos líderes da resposta internacional do Reino Unido ao abuso sexual infantil, defendeu esforços para que crianças e jovens “tenham experiências positivas online — isso vai além de simplesmente remover os danos; isso significa prepará-las para realmente aproveitar a experiência online”, afirmou em sua palestra.

Além dessa questão, é importante destacar que a exceção à proibição na rede carioca de ensino, que permite o uso dos celulares dos estudantes para fins pedagógicos, acaba por endossar a perspectiva de uso individual e privado dos aparelhos para a concretização da inclusão digital na escola.

Mas não é possível nos acomodarmos à ideia de que o celular pessoal do estudante, muitas vezes compartilhado com outras pessoas da família, deve ser um item do material didático, sem o qual não poderá acessar conteúdos escolares ou realizar atividades que os levem a refletir sobre o mundo digital e explorar recursos digitais com intencionalidade pedagógica. 

A solução não pode recair sobre o estudante e suas famílias. Especialmente em redes públicas de ensino que, ao menos em tese, já possuem aparelhos como tablets, justamente atentas a essas demandas.

Os desafios que perpassam o acesso de crianças e adolescentes à internet, sobretudo a partir dos celulares, na escola e em outros contextos, são inúmeros e complexos. É preciso, portanto, pensarmos a segurança de forma atrelada à construção de ecossistemas educativos que efetivamente beneficiem a aprendizagem, sem que isso viole a inclusão digital e a educação midiática dos estudantes.

(Foto: RDNE Stock project/Pexels)

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Bruno Ferreira

Assessor pedagógico

Jornalista e professor. Mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. Possui licenciatura em Educação Profissional de Nível Médio, pelo IFSP. Atuou como professor de Comunicação e Desenvolvimento Social, no Senac-SP, como consultor de alfabetização midiática e informacional da UNESCO e formador de professores de redes públicas de ensino.

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