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Os limites do 'fact-checking'

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Isabella Galante
Mariana Mandelli

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É preciso que a escola mostre o verdadeiro sentido da prática jornalística

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Quando lemos uma reportagem publicada por um veículo jornalístico, pressupomos que aquele conteúdo foi pesquisado, investigado e apurado antes da sua publicação. Isto é, entende-se que aquilo que é reportado pelo jornalista obedece a padrões de confiabilidade e profissionalismo que aproximam consideravelmente o relato da realidade – ou da “verdade”, como muitos gostam de dizer, apesar das armadilhas filosóficas que essa palavra provoca. 

A atividade jornalística sempre previu, como etapa inexorável ao processo, a checagem de informações, sejam elas dados ou declarações. A crise de desinformação em que vivemos, com o compartilhamento de “fake news” em escala exponencial, reconfigurou, porém, esse estágio da produção jornalística tornando-o a própria notícia. Como? Por meio das plataformas de checagem, prática conhecida como fact-checking

Há alguns anos, uma “pista” ou informação falsa que chegasse às redações seria descartada sem que se publicasse qualquer coisa. Agora, o próprio ato de desmentir virou um “filão”. É comum acessarmos um portal e nos depararmos com manchetes que começam com “É falso que” ou “É montagem”, acompanhadas de hashtags como #verificamos ou #éfatoouéfake. 

Os veículos jornalísticos têm se dedicado a comprovar a veracidade de boatos, memes, virais e declarações de pessoas icônicas, mas existem agências e entidades independentes dedicadas exclusivamente ao tema. 

Por definição, fact-checking ou checagem de fatos é o ato de verificar o discurso de autoridades e personalidades. A ideia é confrontar essas falas públicas com informações, dados, estudos científicos e documentos oficiais para, então, chegar a uma conclusão que indica erros, imprecisões e mentiras. 

O fact-checking começou de forma organizada em 1991, na CNN de Washington (EUA), quando um jornalista checou a veracidade da propaganda eleitoral dos candidatos à presidência do país – à época, Bill Clinton e George Bush estavam na disputa. A ação acabou resultando na primeira agência de checagem de propaganda eleitoral, a “Ad Police”. O sucesso do modelo foi tanto que desencadeou outros projetos pelo país e pelo mundo.

No Brasil, a prática começou a ganhar mais visibilidade em 2014, graças às eleições presidenciais daquele ano, e foi ganhando forma. Hoje, diversos órgãos públicos, como a Câmara dos Deputados, o Ministério da Saúde e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por exemplo, já contam com programas específicos para checagem de informações e, principalmente, para desmentir boatos a respeito da sua própria atuação.

Entre aquele 2014 e 2019, o número de entidades que se dedicam exclusivamente a detectar informações falsas cresceu quase cinco vezes em todo o planeta. Segundo o Duke Reporters’ Lab (Universidade de Duke), instituição que mapeou essas experiências, atualmente há pelo menos 210 grupos desse tipo trabalhando em 68 países. 

De modo geral, o crescimento desse nicho jornalístico se deu, entre outros motivos, pela democratização do acesso à internet e pela consequente disseminação das redes sociais, que deslocaram o status de gatekeeper (ou porteiro, em tradução livre) do jornalismo. A partir do momento em que ele perde o posto de único curador do que é ou não notícia, por outro lado acaba ganhando a posição de gatewatcher, aquele que faz a seleção e filtragem de conteúdos, além de combater a desinformação.

Esse “novo” papel do jornalismo auxilia na recuperação da relevância, confiabilidade e credibilidade da imprensa em tempos de pós-verdade, já que o objetivo dos checadores profissionais é qualificar o debate público, incentivar a participação cidadã, promover a responsabilidade dos discursos públicos e, consequentemente, fortalecer a democracia. 

Entretanto, para que isso aconteça, o público precisa confiar nos verificadores de fatos e entender que os critérios de checagem atendem aos requisitos da International Fact Checking Network (IFCN), que é parte do Poynter Institute, um dos mais renomados centros de formação e aprimoramento do jornalismo. Entre os diversos princípios que regem essa rede global estão o apartidarismo, a adoção de padrões de verificação, não defender ideologias políticas e transparência de fontes, metodologia e organização.

A queda da credibilidade da imprensa, fomentada por ataques de autoridades e atores relevantes no cenário político, coloca-se como principal obstáculo nesse sentido. Se a audiência não acredita em determinado veículo, por que confiaria na checagem de fatos que ele faz?

Além disso, o fact-checking esbarra em outra limitação: não impede diretamente a propagação de conteúdo mentiroso e nocivo, uma vez que não consegue abarcar a quantidade absurda de boatos e montagens que são espalhados a cada minuto nas redes. 

Um exemplo desse entrave vem de um levantamento coordenado por pesquisadores das universidades de Princeton, Exeter e Dartmouth, nos Estados Unidos. O estudo identificou que durante as eleições presidenciais de 2016, vencidas por Donald Trump, 27,4% dos entrevistados consumiram conteúdos de sites que promoviam desinformação. Desses, apenas metade teve algum contato posterior com a versão publicada por um site de verificação de fatos.

Já uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) sobre o Twitter mostrou que histórias falsas têm 70% mais chance de serem compartilhadas do que histórias verdadeiras.

Talvez o antídoto mais poderoso para esse cenário turbulento e complexo seja mostrar a essa e às próximas gerações como funciona exatamente o jornalismo. A compreensão do processo como um todo pode ajudar a restaurar o valor que uma imprensa livre deve ter nas sociedades democráticas, incentivando o consumo crítico de informação.

Para a população em idade escolar, é importante lembrar que o sistema educacional brasileiro conta com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento dá grande ênfase à cultura digital e ao entendimento do campo jornalístico-midiático por parte dos estudantes do ensino fundamental e médio, ressaltando a importância da educação midiática como uma abordagem transversal, atingindo todas as disciplinas. 

Nessa perspectiva, é importante que crianças, jovens e seus responsáveis compreendam que o fact-checking complementa o jornalismo tradicional e é parte dos esforços na luta contra a desinformação. Mas é necessário ir além dele. É preciso que a escola mostre o verdadeiro sentido da prática jornalística, enfatizando o interesse público do que é produzido a partir de informações colhidas com fontes qualificadas e visões divergentes. 

No entanto, essa reflexão não pode, de forma alguma, se descolar da responsabilidade individual de cada cidadão no compartilhamento de conteúdos falsos. Não adianta existirem agências de checagem se não houver essa consciência, tanto por parte dos mais jovens, que já nasceram em um contexto digital, quanto dos mais velhos, que viviam em uma realidade offline. Afinal, estamos todos ainda aprendendo a lidar com esse mundo conectado.

 

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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Isabella Galante

Analista de comunicação

Isabella Galante é analista de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

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Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

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