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O que a Nigéria pode nos ensinar sobre educação midiática?

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Autor Elisa Thobias Assistente de comunicação Sobre o autor

País sede da Global MIL Week 2022 enfrenta o desafio de disseminar o conceito entre as camadas sociais menos favorecidas

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📸: ASphotofamily

Em outubro, o mundo esteve reunido em Abuja, na Nigéria, para celebrar a Global MIL Week, a Semana Mundial de Alfabetização Midiática e Informacional, promovida pela UNESCO. Com o tema “O aumento da confiança: um imperativo para a educação midiática e informacional”, o evento convidou atores de diversos países para realizarem ações em conjunto e lideranças globais discutiram a temática em painéis de discussão.

Não foi por acaso que o país fora escolhido para sediar a MIL Week. Apesar de contar com um dos índices mais altos do mundo de crianças fora da escola, cerca de 13,2 milhões segundo dados de 2020, a Nigéria tem iniciativas interessantes voltadas à educação midiática e à checagem de fatos. E, em vias de realizar uma eleição presidencial, marcadas para fevereiro de 2023, não há momento mais oportuno para discutir a importância da informação de qualidade. 

Um exemplo de trabalho voltado ao desenvolvimento da educação midiática são as iniciativas realizadas pelo educador Martins Akpan. Segundo a UNESCO, o fundador do Teen Resources Center, trabalha diretamente com crianças e adolescentes e seu grande desafio é desenvolver neles, por meio das atividades, o pensamento crítico. Nos últimos dezoito anos, ele assistiu ao desenvolvimento do currículo da educação midiática em todo o mundo e sua integração à sociedade nigeriana. 

Akpan tem utilizado jogos educativos com excelentes resultados. Em entrevista, I Remi, uma das alunas de Akpan, disse que “realmente amava o assunto.” “Hoje tenho uma postura crítica com relação aos desenhos animados a que assistia quando criança, graças aos jogos de educação midiática e informacional.” 

O país mais populoso da África também enfrenta os desafios da desinformação. Um dos principais candidatos a presidência do país transformou a checagem em seu slogan de campanha. Ao falar de seu histórico político, Peter Obi termina com a frase “vá lá e verifique”. 

O uso de deepfakes e conteúdos audiovisuais manipulados também já faz parte do cotidiano da Nigéria. Como relatou o jornalista David Ajkobi para a Agência Lupa, circulou nas redes sociais do país um vídeo afirmando que Elon Musk, o bilionário dono da Tesla, era apoiador de Obi. A produção, vista milhares de vezes, na verdade, foi criada por inteligência artificial. 

Na contramão das informações falsas, está a Coalização de Checadores de Fatos da Nigéria. De acordo com o portal Poynter, o grupo, formado por oito entidades locais ou regionais de verificação de fatos, tem o objetivo de realizar apurações com mais acuracidade, elevar o nível do campo informacional e promover campanhas de educação midiática. 

O que as lideranças da organização temem é que o pleito eleitoral nigeriano seja semelhante às últimas edições brasileiras e estadunidenses, marcadas pelo aumento da desinformação. Notícias falsas nas mídias sociais destinadas a agendas políticas distintas e discursos que atacam questões éticas e religiosas são muito comuns, gerando preocupação nos comunicadores e na sociedade nigerianos. Somado a isso, a checagem de fatos em idiomas locais ainda é uma barreira a ser superada. 

Como estratégia de enfrentamento, o grupo pretende usar a prática do prebunking, ou seja, publicar explicações e análises de especialistas sobre temas que podem gerar desinformação. A ideia é explicar rapidamente os fatos antes que qualquer controvérsia se instale. E, antes de possíveis alegações de fraude eleitoral, a coalizão, conforme a reportagem do repórter Seth Smalley, quer divulgar materiais explicativos sobre como o processo eleitoral, o financiamento de campanhas políticas e as pesquisas de opinião funcionam. 

Assim como o Brasil, a Nigéria enfrenta o problema do acesso à internet nas regiões mais pobres. Isso pode fazer com que a checagem de fatos leve ainda mais tempo para acontecer, facilitando o caminho para que informações falsas sejam disseminadas. O avanço da educação midiática nesse sentido fica prejudicado, fazendo com que as camadas menos privilegiadas da população não sejam atendidas a tempo, sendo que esse segmento da sociedade tem, historicamente, grande participação nas eleições do país.

Por mais que seja arriscado comparar países, em terras brasileiras, a legislação caminha para que o desenvolvimento de ações de educação midiática esteja juridicamente assegurado. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tem uma sólida ênfase na cultura digital como uma das principais competências a serem desenvolvidas no ensino fundamental e médio. Em junho, o Senado Federal aprovou a PEC 47/2021, que assegura a todos os brasileiros o direito à inclusão digital e obriga o poder público a promover políticas públicas que ampliem o acesso à internet em todo o território nacional.

Mesmo com diferenças econômicas, sociais e culturais entre Brasil e Nigéria, é importante reconhecer iniciativas que geram resultados positivos, sobretudo se desenvolvidas a longo prazo. Precisamos descolonizar nossos olhares que tendem a valorizar somente o que vem da Europa e da América do Norte. Ao redor do mundo, há diversos atores realizando trabalhos admiráveis para promover a educação. Valorizar tais projetos é se aproximar das raízes de muitos brasileiros e brasileiras. 

Mais uma vez, a tríade educação de qualidade, imprensa livre e conscientização sobre a desinformação se mostra decisiva para o futuro de uma população. Estes são elementos essenciais para a democracia e fundamentais para o mundo conectado em que vivemos. 

 

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Elisa Thobias

Assistente de comunicação

Educomunicadora, é assistente de comunicação.

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