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Mulheres desafiam padrões de beleza nas redes

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Autor Mariana Mandelli Coordenadora de comunicação Sobre o autor

Influenciadoras promovem autoestima e quebra de preconceitos

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Imagem: Unsplash

Mesmo em um verão pandêmico, em que pesquisadores e médicos alertaram insistentemente para que as pessoas não aglomerassem em festas e praias, as redes sociais foram inundadas de fotos de gente aproveitando a estação. Ignorando solenemente a Covid-19, influenciadores digitais, artistas e celebridades postaram uma infinidade de imagens em Trancoso (BA), Angra dos Reis (RJ), Fernando de Noronha (PE) e outros paraísos litorâneos brasileiros, exibindo seus corpos perfeitos e bronzeados como ocorre em todo mês de janeiro.

A relação tóxica entre padrões de beleza e mídias sociais não é exatamente uma novidade: há muito se debate, em âmbito psicológico e sociológico, o quanto a exibição excessiva de selfies e recursos tecnológicos como os filtros vêm alterando a nossa percepção sobre nós mesmos. 

Especialmente sob a perspectiva da saúde mental feminina, essa pressão por parâmetros estéticos inatingíveis pode ser avassaladora, pois agora ela não se encontra mais presente apenas em capas de revista e programas de televisão, mas em praticamente qualquer timeline, em tempo integral. Tal fenômeno tem nome: “dismorfia digital” ou “dismorfia Instagram”, termo usado inclusive na área médica para definir a distância entre os corpos perfeitamente editados nas redes e a autoimagem feminina.

Contudo, nem tudo é ostentação e manipulação nas mídias digitais. Diversas mulheres vêm abrindo espaço nessas mesmas plataformas ao produzirem conteúdos que desconstroem muitos desses padrões nos mais variados aspectos, exaltando justamente aquilo que por décadas aprenderam a chamar de “imperfeições” físicas. 

Talvez o movimento mais conhecido seja o Body Positivity, que ganhou outra proporção na era da superabundância de informação. Com a disseminação de hashtags como #effyourbeautystandards, #celebratemysize e #honormycurves, mulheres como Tess Holiday e Nadia Aboulhosn celebram seus corpos há anos, rompendo com a gordofobia inerente ao mundo da moda. No Brasil, as influencers Juliana Romano e Gabi Fresh são algumas das que somam centenas de milhares de seguidores com a mesma premissa.

Contra o etarismo, há uma notável tendência de crescimento no que vem sendo chamado de “influencers da terceira idade”: idosas que usam as redes sociais para quebrar qualquer preconceito com a idade. Essas “it ladies”, um paralelo com as “it girls”, garotas consideradas ícones de moda e estilo de vida, são mulheres acima dos 60 anos que mostram, em fotos e vídeos, suas rotinas de beleza e opiniões sobre os mais diversos assuntos. 

O canal de YouTube de Helena Wiechmann, 91, Sonia Bonetti, 83, e Gilda Bandeira de Melo, 78, as Avós da Razão, é um ótimo exemplo disso. Outro exemplo  é a conta no Instagram da Vovó Izaura Demari, uma “model influencer” de 80 anos com mais de 100 mil seguidores, que traz fotos e legendas leves, divertidas e fashion, como ela mesma define. 

As mulheres com deficiência também vêm ganhando cada vez mais visibilidade. Lorrane Silva, a pequena Lô, tornou-se um verdadeiro fenômeno no TikTok ao gravar esquetes humorísticas em microvídeos editados de forma primorosa. Já a baiana Cacai Bauer tornou-se a primeira influenciadora digital com Síndrome de Down do mundo e hoje conta com quase 300 mil seguidores só no Instagram.

São inúmeros os exemplos de mulheres que, dia após dia, desafiam pilares sociais da beleza construídos por décadas em torno de um ideal colonial de perfeição estética: branco, loiro, magro e de olhos claros. Mulheres com acne, vitiligo e outros problemas de pele; mulheres com doenças congênitas e outras enfermidades raras; mulheres trans; mulheres pretas que vivem nas periferias de grandes centros urbanos; mulheres indígenas, entre tantas outras.

Com amplas audiências cativas, muitas delas passaram das timelines para capas de revista, campanhas publicitárias e outras mídias tradicionais. É bem mais fácil encontrar hoje, durante os comerciais da televisão aberta, anúncios com modelos pretas e gordas, por exemplo. Mesmo que ainda falte muito para a diversidade se concretizar, é possível dizer que a representatividade, enfim, virou um tema mainstream.

A seu modo, cada uma dessas mulheres contribui para alargarmos nossas visões sobre a condição feminina, os conceitos de gêneros e as diferentes concepções de feminismo existentes. Por mais que ainda exista uma intensa publicidade nas redes, com atrizes e modelos consideradas padrões, hoje cada usuário pode fazer a sua própria curadoria de conteúdo. 

Abrir mais espaço para a diversidade na nossa timeline, valorizando diferentes corpos, cores de pele, classes sociais e experiências de vida, é uma maneira de nos enxergarmos com lentes mais potentes, trabalhando nossa autoimagem de maneira mais justa e equilibrada.

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Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

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