Carregando...
— Colunas e Artigos

Humor e ironia são armadilhas para quem lê mal a mídia

Foto de Alexandre Sayad
Autor Alexandre Sayad Jornalista e educador Sobre o autor

Em pleno setembro amarelo, que representa um alerta máximo na prevenção de suicídio, a BBC (British Broadcast Television), serviço público de comunicação britânico, surpreendeu o mundo com um...

Imagem de destaque do post

Em pleno setembro amarelo, que representa um alerta máximo na prevenção de suicídio, a BBC (British Broadcast Television), serviço público de comunicação britânico, surpreendeu o mundo com um achado que alavancou o humor a uma posição jamais imaginada: a de salvador de vidas durante a Segunda Guerra Mundial. Foram encontradas gravações de programastes de rádio datados de 1940, do serviço em alemão da emissora, destinadas a germanófonos que não apoiavam Hitler, mas viviam no Eixo ou exilados em outras países. O objetivo era debochar de Hitler e trazer esperança aos aliados.

A experiência ousada, de esquetes bem-humoradas, chamada Die Briefe des Gefreiten Adolf Hirnschal (algo como As cartas do soldado Adolf Hirnschal), chegou a toda a Europa, mas tinha que ser escutada clandestinamente. O que surpreendeu a emissora recentemente foi a enxurrada de mensagens de pessoas que disseram ter desistido do suicídio, ou retomado o fôlego perdido, depois de escutarem ao programa à época; eram tempos sombrios que pareciam não ter fim. Não havia pesquisa sobre o alcance dessa experiência até então; utilizar o humor contra Hitler não era uma ideia bem aceita por todos (até hoje, inclusive).

O fato é que identificar o humor na comunicação pode não ser dos processos mais simples. Uma sátira, pastiche ou paródia pode resultar em desastre se a interlocução se resumir a uma leitura meramente verbal ou superficial da mensagem. O caso da ironia, que é uma figura de linguagem que tem como ideia comunicar algo e, na verdade, significar exatamente o contrário do que foi dito, é ainda mais perigoso. Além disso, peças com humor ou ironia caminham mais delicadamente sobre a linha tênue do politicamente correto e da provocação.

Um exemplo simples de quando falhamos drasticamente é quando pretendemos ser engraçados ou irônicos no Whatsapp. Um texto curto, escrito às pressas, lido ainda mais rapidamente, não dá conta de cumprir essa função. Muitas vezes podemos desagradar a quem estamos escrevendo.

O domínio da língua e a educação midiática tornam-se fundamentais para que o humor não perca a graça e, por consequência, a função. Requer da audiência habilidades para uma análise mais completa e profunda, para compreender que está sendo provocada a rir, e não a concordar ou aceitar de pronto o que é comunicado. O papel da educação midiática em tempos de enxurrada de informação que vivemos – bem-humoradas, bem-intencionadas ou não – se faz ainda mais fundamental. Somente uma audiência bem preparada pode distinguir as nuances mais sofisticadas da linguagem.

Por isso o feito da BBC se torna inda mais notável – a batalha de informação foi central na Segunda Guerra Mundial, quando os lados mentiam e tornava-se muito difícil separar a realidade da mera invenção.

Mais recentemente, nos anos de 1980, o tabloide popularesco Notícias Populares era o jornal mais lido do Brasil. O conteúdo beirava a ficção: “Bebê-diabo nasce no ABC” foi uma das manchetes ostentadas na sua capa. Entretanto, o riso não era o que o jornal mais provocava a todos naquele tempo. O que poderia ser um produto de humor, ampliava ainda mais o abismo entre os bem-informados e os que permaneciam nas trevas.

Por custar muito barato, era mais consumido pela parcela da população menos escolarizada, que fazia do tabloide sua principal fonte de informação. O NP, como era chamado, foi tese de inúmeros estudos acadêmicos que o posicionou menos como um veículo de humor, e mais como uma ferramenta de desinformação. Quem tinha dinheiro preferia comprar um jornal ou revista de credibilidade e julgava o NP como um produto de categoria inferior.

Quase trinta anos depois, a educação pública brasileira tornou-se mais abrangente; da mesma forma, mesmo que involuntariamente, a expansão das mídias acabou por tornar experiências como as do NP mais claras para os consumidores. É difícil alguém acreditar, nos tempos atuais, que “O Sensacionalista” é um veículo sério, e não uma paródia sobre as notícias, por exemplo.

Entretanto, o risco ainda é grande quando esbarramos nas sutilezas; distinguir paródias e ironias de textos sérios pode ser um exercício complexo quando esbarramos em peças menos caricaturais e textos mais densos. O currículo de educação midiática da UNESCO e a proposta do EducaMídia explicitam a necessidade de se desenvolver na escola as habilidades para se navegar com segurança por gêneros de comunicação que podem ter nuances sutis de humor e ironia. É importante reconhecê-los e deixar as características mais explícitas.

Numa propagação exponencial de opiniões como a que ocorre nas redes sociais, uma única má interpretação de mensagem pode se tornar uma bola de neve capaz de influenciar situações reais e denegrir pessoas ou instituições. Há pelo menos dez anos, uma fotomontagem explícita de um suposto turista fotografado no World Trade Center, com um dos aviões ao fundo prestes a se chocar contra o edifício, passou de um “meme” caricato e engraçadinho a manchete de alguns jornais que não souberam identificar a peça como uma brincadeira de gosto discutível. Quem acabou vítima e chacota foram os veículos que levaram a piada a sério.

Imagem de Rafael Javier por Pixabay

Foto de Alexandre Sayad

Alexandre Sayad

Jornalista e educador

Alexandre Le Voci Sayad é jornalista e educador, diretor da consultoria ZeitGeist e membro diretivo da aliança GAPMIL (de educação para a mídia da UNESCO), além de membro do conselho consultivo do projeto Educamídia (do Instituto Palavra aberta e google.org ) .Trabalha há vinte anos com temas de educação para a mídia e inovação. Cursou especialização em negócios pela Universidade da Califórnia / Berkeley e é fundador de três ONGS e duas empresas na área. É autor de livros na área, dentre eles "Idade Mídia - A Comunicação Reinventada na Escola" (Editora Aleph). Mais informações:   alexandresayad.com

Voltar ao topo
FAÇA
PAR—
TE

Venha para nossa rede de educação midiática!
Fique por dentro das novidades

Receba gratuitamente nossa newsletter

Siga nossas redes sociais

Que tal usar nossa hashtag?

#educamidia