“A gente enxerga muito mais potência do que violência”. A frase é do comunicador, ativista e empresário Rene Silva, fundador do jornal comunitário Voz das Comunidades, em entrevista no ano passado para o podcast da educadora Andrea Ramal. Completando duas décadas em 2025, o veículo de comunicação tornou-se uma ONG e segue cumprindo a missão que está em seu nome, já que empodera e representa os cidadãos e cidadãs que vivem o dia a dia das comunidades cariocas para além de perspectivas estereotipadas.
A história do Voz das Comunidades é, para usar uma palavra citada por seu próprio criador e presidente, potência: começou dentro da escola pública e ganhou reconhecimento nacional e internacional. Com apenas 11 anos, Rene envolveu-se no jornal do colégio onde estudava, no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, de onde saiu a inspiração para, posteriormente, criar seu próprio veículo. Seu relato em tempo real de uma operação policial em 2010 fez com que ganhasse projeção e (re)abrisse um debate sobre a distância que a mídia tradicional muitas vezes assume da realidade da maior parte da população.
Não à toa, Rene já figurou em listas diversas que destacam e homenageiam jovens líderes, como Forbes Brasil, em 2015, e TIME, em 2023, consolidando o Voz das Comunidades como uma das iniciativas de comunicação independente mais importantes do tipo. Hoje, ele também apresenta um programa no Globoplay, serviço de streaming da Globo, chamado “Não Era Só Mais um Silva”.
Feito por e para os moradores das favelas do Rio de Janeiro, o Voz das Comunidades hoje é multiplataforma: além de manter a versão impressa, conta com um portal de notícias, aplicativo e perfis nas principais redes sociais, fazendo com que as informações cheguem ao público independentemente do tipo de acesso que se tem às tecnologias.
Esse é, inclusive, um dos pontos mais importantes de qualquer projeto de jornalismo comunitário: o conhecimento do território, ou territórios, onde se atua. Tal conhecimento é a força-motriz das pautas e das reportagens delas resultantes, incluindo efetivamente a comunidade em todas as etapas do fazer jornalístico. Entre os resultados desse processo está a promoção de uma comunicação efetivamente democrática, inclusiva e cidadã, fazendo com que a informação seja valorizada como um bem coletivo, já que as demandas da população e a prática jornalística se retroalimentam ativa e diretamente.
Por isso, não é exagero afirmar que esse tipo de jornalismo é um dos antídotos mais eficazes contra os chamados “desertos de notícia”, regiões onde não há cobertura jornalística local profissional. De acordo com o Atlas da Notícia, projeto de jornalismo de dados do Projor, o Brasil vem melhorando nesse aspecto: nos últimos dois anos, registrou queda de 7,7% no número de municípios ou territórios nessas condições — decréscimo este que está relacionado, segundo o relatório, ao surgimento de novos veículos digitais.As formas pelas quais nos informamos e nos comunicamos sofreram transformações profundas nesses 20 anos de vida do Voz das Comunidades. Todavia, algo que não mudou, e provavelmente não mudará, é a conexão que o público estabelece com iniciativas que dialogam diretamente com seus problemas, suas conquistas e seu território. Nesse sentido, cabe salientar também que, ao conquistar audiências interessadas e gerar engajamento, projetos assim desempenham um papel essencial na educação midiática da população, mostrando a relevância e as boas práticas do jornalismo para a sociedade.