Chamar de “tigre das Grandes Antilhas” pode soar um como exagero cômico. Mas o fato é que a economia da República Dominicana vem crescendo na América Central de forma mais satisfatória que os vizinhos. Ironicamente ela divide o território-ilha com o Haiti, um dos países mais pobres do mundo. Mantém-se ainda de uma atividade focada na agricultura (cana de açúcar), e dependente das exportações para os Estados Unidos – nesse ponto reside a eterna batalha cultural do Caribe em preservar as raízes frente aos Estados Unidos, que ficam “logo ali na esquina”.
Entretanto, os acordos de livre comércio na região e uma forte e sistêmica investida em tecnologia fez crescer o setor de serviços nos últimos anos, impulsionado também pelo turismo de verão. O mais recente governo decidiu por um golpe ainda mais incisivo: apostar no projeto República Digital, que evolve um investimento maciço em hardware e treinamento de profissionais em diversas áreas do país, mas sobretudo na educação.
Na prática, o projeto prevê acesso a internet gratuita (nos principais pontos da capital, Santo Domingo, é visível), uso de tecnologia para a transparência de trâmites e serviços do governo, além de um ambiente favorável à aprendizagem na educação. Nesse ponto a República Dominicana se aproxima da distante da Estônia (país báltico no nordeste europeu), aposta em tecnologia para desburocratizar o estado. Mas quando o assunto é o Pisa, a Estônia está em plena ascensão; a República Dominicana se mantém em posições inferiores frente a outros países da América Latina, incluindo o Brasil.
O olhar para a tecnologia como pano de fundo para uma aprendizagem mais conectada com os alunos é sem dúvida o fator crucial de sucesso da República Digital, quando o assunto é educação. Afinal, o uso não-instrumental das tecnologias é a melhor maneira de proporcionar o desenvolvimento de habilidades e competências importantes pelos alunos e, em termos de nação, uma chave fundamental para o desenvolvimento democrático e econômico. Nesse sentido, o projeto hoje caminha em uma corda bamba quando de um lado enfatiza a política de um computador por aluno – que já se mostrou equivocada em outros países, numa época que os celulares ainda nem acessavam a internet; por outro lado, apresenta pontos interessantes, quando propõe formar professores e distribuir equipamentos para que esses preparem melhor suas aulas.
Para reforçar um olhar mais abrangente sobre o que fazer com a tecnologia em sala de aula, a capital Santo Domingo recebeu em maio um encontro global com especialistas em educação midiática do todo o mundo, promovido em parceria com a rede Alfamed, que reúne mais de 800 especialistas da América Latina, península Ibérica e Itália. A rede é coordenada por uma dos mais reconhecidos especialistas europeus no campo, Dr. Ignacio Aguaded, da Universidade de Huelva, Espanha.
Os convidados, que falaram para mais de 500 professores de ensino fundamental e médio, concentraram os esforços para afastar o “milagre tecnológico” da burocracia ou uso desorientado de TICs. O desenvolvimento das competências digitais e midiáticas, que por aqui têm sido também chamadas de fluência digital e educação midiática nos documentos da BNCC, foi sublinhado por todos como um caminho para a formação de cidadãos conectados com este tempo.
Os próximos passos da República Digital serão conduzidos pelo gabinete da Presidência e parecem cautelosos ao direcionar esforços para necessidades estratégicas, e assim evitar que os sonhos do país não sejam arrastados pelos furacões da temporada que afugentam turistas de Punta Cana.
Imagem: Mediamodifier por Pixabay