A notícia de que uma mulher britânica está processando o TikTok colocou em debate novamente os perigos dos desafios virais. Em 2022, Jools Sweeney tinha 14 anos quando foi encontrado inconsciente em seu quarto por sua mãe, Ellen Rome, em Cheltenham, Inglaterra. Ela acredita que seu filho tenha morrido após participar do “desafio do apagão” (blackout challenge), que consiste em prender a respiração até desmaiar, e afirma que os dados do perfil dele poderiam fornecer as provas necessárias.
Na luta para esclarecer a morte do adolescente, Ellen tornou-se uma ativista e, no processo contra a big tech chinesa, uniu-se a outras famílias que também tiveram filhos mortos em circunstâncias semelhantes. Ela também defende a aprovação da chamada “Lei Jools”, que obrigaria as empresas de tecnologia a conceder os dados de menores de idade em caso de falecimento destes.
O caso de Ellen é um exemplo de como tragédias desse tipo exigem responsabilidade e responsabilização coletivas para serem evitadas. Plataformas, poder público e famílias têm papéis compartilhados para assegurar que adolescentes estejam minimamente seguros nas redes.
Conteúdos nocivos, violentos e ofensivos, que possam ferir direitos humanos e impactar a saúde mental, devem ser coibidos nas timelines de forma realmente eficaz. As cobranças por mais transparência nos algoritmos e por mecanismos de denúncia mais eficientes são legítimas e devem ser atendidas.
O poder público, em todas as suas instâncias, também deve acompanhar, regular e fiscalizar o que acontece nos ambientes digitais, bem como deve construir e implementar políticas públicas de educação digital e midiática para a população, incluindo adultos e idosos.
Já os pais, mães e responsáveis precisam compreender os riscos que os ambientes digitais oferecem, para entenderem e supervisionarem seus filhos e filhas. Vale destacar que as diferenças geracionais e as desigualdades sociais são duas problemáticas que não podem ser ignoradas no contexto brasileiro.
O caso de Sarah Raíssa de Castro, morta aos 8 anos em Ceilândia (DF) no ano passado após inalar desodorante para participar de um desafio, ilustra bem essa complexidade. À época do ocorrido, ela estava sob os cuidados do avô, já que seus pais estavam trabalhando. Ou seja: quando falamos em educar a população, por meio de campanhas e outras ações, é necessário não culpabilizar as famílias e compreender as diferentes configurações de lares e as especificidades de cada faixa etária.
As escolas também são um elemento importante dessa equação. Com a educação digital e midiática presente nos currículos escolares, é possível levar o diálogo sobre proteção e segurança digital para a sala de aula, ainda que os celulares estejam vetados desses ambientes. Além disso, a aprovação do ECA Digital em 2025 e sua entrada em vigor nos próximos meses é um alento em um cenário cada vez mais desafiador, onde a responsabilidade compartilhada ganha cada vez mais peso. No entanto, sua efetividade só virá se todos os elos da cadeia de responsabilidade exercerem o seu papel. Parece chover no molhado afirmar que o esforço deve ser coletivo, mas não há como fugir disso para mitigar chances de perdermos mais crianças e adolescentes como Raissa e Jools.