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Homem Pateta e os perigos dos desafios virtuais

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Autor Mariana Mandelli Coordenadora de comunicação Sobre o autor

Conteúdos virais ameaçam crianças e jovens, reforçando a importância da educação midiática

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Quem tem crianças na família ou lida com elas em sua rotina profissional, como os professores, deve ter ouvido o nome “Homem Pateta” nas últimas semanas. Trata-se da imagem bizarra de um homem com cara de cachorro, identificado como Jonathan Galindo, que supostamente aborda menores de idade em redes sociais, convidando-os para conversas privadas. A partir daí, segundo relatos, começa a aterrorizá-los, propondo desafios, chegando a sugerir que eles cometam suicídio.

À primeira vista, parece invencionice infantil, mas a Polícia Civil de Santa Catarina emitiu um alerta sobre o caso, indicando os riscos do contato com perfis de Facebook que tivessem essas características. A Polícia Federal também investiga a origem do “Homem Pateta” – de acordo com o Código Penal, induzimento, instigação e auxílio ao suicídio ou à automutilação são considerados crimes.

Como quase tudo que se espalha pela internet, esse tipo de coisa não é novidade. Entre verdades e mentiras, nos últimos anos, ouviu-se muito sobre a “Baleia Azul” e a “Boneca Momo”. As histórias são bastante parecidas: são espécies de “correntes” sem fonte conhecida, focadas no público infantojuvenil, que normalmente surgem em outros países e chegam ao Brasil com alguns anos de atraso, amedrontando famílias e escolas por impactar a saúde mental de crianças e adolescentes.

No caso da “Baleia Azul”, que aparentemente começou na Rússia e se alastrou pelo mundo, os adolescentes eram incluídos em grupos fechados e induzidos a participar de até 50 desafios diários, que começavam com atividades simples para depois demandarem ações arriscadas, como a automutilação, até chegar à última, que seria o suicídio do participante. Não se sabe o número exato de vítimas, mas houve casos de morte de adolescentes brasileiros que ficaram sob investigação por terem suspeita de relação com o jogo.

A lógica de assustar e desafiar crianças e adolescentes é o DNA dessas “lendas urbanas digitais” que, com a velocidade inescapável das redes, espalham-se de maneira muito mais efetiva do que o boca a boca de antigamente, como acontecia com a “loira do banheiro” e outros mitos que rondaram a infância das últimas décadas.

Mas a diferença abismal entre o presente e o passado não é apenas a rapidez com que o pânico se expande entre famílias, confundindo pessoas e pautando autoridades e imprensa. Hoje, temos a viralização do terror, já que existe uma multiplicidade de possíveis canais em que a criança pode ter contato com esse tipo de mensagem perversa.

Isso porque somos, além de consumidores, produtores de conteúdo, o que torna praticamente impossível controlar a narrativa de algo que atrai tanta atenção como o “Homem Pateta” e semelhantes. Qualquer pessoa pode simplesmente pegar a imagem, criar um usuário igual ao do suposto agressor e copiar seu modo de agir.

Assim, proliferam-se perfis com nomes parecidos; a mesma foto é alterada digitalmente e espalhada em diversas redes; youtubers gravam vídeos sobre o assunto na tentativa de monetizarem o material etc. Tudo isso feito com objetivos dos mais variados e em um volume astronômico. Ou seja: mesmo que as plataformas sociais ajam rapidamente para retirar esse tipo de mensagem do ar, é sabido que é muito difícil eliminá-la totalmente da internet.

Além disso, mesmo que os responsáveis instalem aplicativos de controle parental nos celulares e computadores, nada impede que as crianças e adolescentes tomem conhecimento desses desafios virais e de outros, como o da rasteira (ou “quebra-crânio”), dentro da escola, por meio dos colegas.

Em outros termos, além do suporte familiar, que é fundamental, é preciso levar essa discussão para o mundo da educação não só quando surge algo novo, como o “Homem Pateta”, mas de maneira perene. Isso deve acontecer não só porque a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) exige que os alunos e alunas da educação básica desenvolvam habilidades de cultura digital, mas por uma questão de autonomia, senso crítico e responsabilidade deles para vivenciar o mundo conectado.

Ainda é comum confundirmos a destreza de crianças e jovens para manusearem gadgets com uma suposta capacidade para navegarem com segurança nas redes. Não é exagero dizer que o mito do “nativo digital” precisa ser destruído junto com o “Homem Pateta” e outras figuras correlatas. O diálogo familiar e o apoio escolar devem vir junto com a ideia de que é preciso ensinar os adolescentes a identificarem virais perigosos, discurso de ódio, “fake news”, cyberbullying e outros tipos de conteúdos nocivos e propagadores de gatilhos mentais.

Mais do que nunca, é preciso trazer o conceito de educação midiática para a construção da cidadania do público infantojuvenil. Quanto mais os jovens dominarem as múltiplas ferramentas e linguagens do ambiente informacional e digital, interpretando as mensagens desses meios com a consciência dos riscos que elas podem trazer, mais obstáculos os futuros “Homens Patetas” encontrarão para viralizarem.

 

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Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

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