Em meados de 2025, quando a OCDE anunciou que o próximo ciclo do PISA incluiria um novo domínio de avaliação chamado *Media and AI Literacy* (MAIL), a mensagem era de que as competências essenciais para o século XXI precisam ir além da leitura, da matemática e das ciências. Será avaliada, agora, a capacidade dos jovens de navegar criticamente em um mundo saturado por algoritmos, conteúdos sintéticos e infraestruturas invisíveis que moldam a sociabilidade e o acesso à informação — tornando indissociáveis, de forma muito clara, os letramentos midiático e de inteligência artificial.
Essa mudança é parte de um movimento mais amplo, que reconhece a complexidade do que é a literacia no mundo de hoje. Em 2025, tanto a Estratégia Brasileira de Educação Midiática (EBEM) quanto o Guia do Ministério da Educação sobre Educação Digital e Midiática reforçam a convergência entre as habilidades midiáticas e de IA, ao reconhecerem que preparar jovens para a autonomia digital exige mais do que ensinar a usar as novas inteligências de máquina: é preciso compreendê-las, questioná-las e até transformá-las.
Os órgãos educacionais afirmam agora com muita firmeza que não basta ensinar com IA, é preciso ensinar sobre IA. E indicam que esse letramento pode ser visto como uma ampliação da educação midiática, já que esta deve desenvolver o entendimento não apenas das mensagens, mas também das infraestruturas sóciotécnicas que sustentam sua produção e circulação.
Quando pensamos em desenvolver a maturidade e a autonomia digital dos jovens em um contexto de midiatização, dataficação e plataformização, torna-se evidente que é preciso ir além das análises tradicionais de representação e confiança nas mensagens de mídia, ou das questões de segurança individual. Desenvolver as habilidades digitais críticas da chamada “geração IA” demanda agora, também, a capacidade de interrogar os sistemas algorítmicos, suas decisões opacas, seus vieses incorporados, suas promessas de personalização e suas implicações geopolíticas e ambientais – pensando ainda em bem-estar, segurança e equidade, mas agora cada vez mais em dimensão coletiva.
Nesse contexto, a educação midiática está bem posicionada para absorver muitas das demandas de letramento que se impõem com o avanço da automação: tem lugar nos currículos, apoio nas normas e metodologias conhecidas. Incorporar o letramento algorítmico e de IA significa atualizar repertórios, mas com base na mesma pedagogia exploratória e de perguntas que sustenta essa prática. Significa, por exemplo, ensinar alunos a perguntar: quem projetou esse sistema? Que dados alimentam essa IA? Que vozes foram silenciadas? Como essa tecnologia molda meu modo de ver o mundo?
Muitos estudiosos defendem que não precisamos de uma disciplina isolada para esses novos letramentos. Ao contrário, o avanço mais eficaz se dá de forma situada, no contexto das diversas disciplinas ou em projetos interdisciplinares, em diálogo com realidades concretas. Discutir questões de representação ou viés nas aulas de Arte ou História, explorar na aula de Geografia os impactos da automação no trabalho ou da coleta cidadã de dados em territórios periféricos, observar na aula de Língua Portuguesa se as variações linguísticas estão presentes nos dados de treinamento de um LLM — tudo isso é letramento de IA. E é educação midiática também.
A educação midiática dos nossos tempos não pode se furtar de olhar para as IAs em seus efeitos e estruturas de poder incorporadas. E o letramento de IA também não pode prescindir da educação midiática, que nos oferece as estratégias críticas para compreender representação, integridade da informação, silenciamentos, design manipulativo, e a confluência entre nossas emoções humanas e as máquinas. Promover essa aliança é caminho para um projeto pedagógico verdadeiramente emancipador.