Desde que as operações mais agressivas do ICE foram autorizadas nos Estados Unidos, com o crescimento de atos violentos e arbitrários contra cidadãos desarmados, um movimento popular e descentralizado nas comunidades visadas ensina os cidadãos sobre formas legais de resistência pacífica. A principal delas consiste em mobilizar observadores para registrar possíveis violações de direitos. Filmar não é só um ato de denúncia; é um ato de proteção. Em contextos marcados por assimetria de poder, a presença de testemunhas com celular pode ser a única forma de evitar abusos. Guerras, conflitos internos e operações policiais nos mostram há muito tempo que a história é escrita não apenas por relatos oficiais, mas por quem vivenciou e registrou – e, na era digital, a repercussão desses registros é imediata e global. Um exemplo é a imensa mobilização após os assassinatos de Renée Good e Alex Pretti, em Minneapolis, catalisada pelos registros em vídeo feitos pela população.

Esse tipo de ação tem nome. “Jornalismo cidadão” é o termo que descreve a situação em que informações são coletadas por cidadãos e divulgadas diretamente em canais pessoais ou enviadas a veículos profissionais. São flagrantes de ações policiais, acidentes ou outras cenas do cotidiano capturados por quem as testemunhou. A participação dos cidadãos amplia a cobertura jornalística, dá autenticidade ao que é publicado e permite que relatos em primeira pessoa confrontem versões oficiais. No entanto, é importante qualificar esses registros como material bruto, e lembrar que essa prática também traz um desafio: a rápida disseminação de material com qualidade irregular, falta de informação contextual e carência de critérios jornalísticos de verificação, o que pode ampliar a desinformação

Há ainda um outro risco: a pressa. Quando fragmentos de vídeos são publicados imediatamente nas redes, sem contexto ou checagem, o público, mobilizado emocionalmente e em busca de certezas, tende a preencher as lacunas com suas próprias convicções. Na cacofonia que resulta quando os eventos ainda estão se desenrolando, conclusões precipitadas inflamam ânimos e podem armar narrativas polarizadas, transformando a busca por justiça em disputa partidária. 

O uso de mídia sintética complica o cenário. Precisamos considerar a existência de atores mal-intencionados, capazes de adicionar a esse fluxo conteúdos realistas gerados por inteligência artificial, confundindo o público. Mesmo a busca por justiça pode gerar um mau uso da IA: após a morte de Renée Good, alguém chegou a usar IA para “remover” a máscara do agente que atirou, criando uma imagem que supostamente revelava suas feições. O problema é que isso é tecnicamente impossível: o algoritmo não “revela” nada escondido, apenas inventa uma imagem plausível com base em padrões estatísticos. O resultado não é uma prova, mas uma ficção com aparência de verdade.

Nada disso diminui a importância dos registros cidadãos. Ao contrário: jamais devemos subestimar o poder de uma câmera na mão quando um direito está em jogo. O melhor dos mundos, porém, acontece quando essas imagens são processadas por redações profissionais, onde jornalistas conseguem checar e contextualizar fatos, ouvir especialistas, destrinchar o que o vídeo mostra e não mostra, e apresentar a denúncia dentro de uma linguagem clara e juridicamente sólida. Longe de enfraquecer o impulso democrático de testemunhar, essa mediação o fortalece.

O que está em disputa, no fim das contas, é a capacidade de uma sociedade exercer seu pensamento crítico e reconhecer informações confiáveis, sem se deixar levar por narrativas oficiais enganosas ou pela volatilidade das redes. Cidadãos e jornalistas devem ser aliados nessa construção, mobilizando ferramentas diferentes diante de um mesmo desafio: preservar a verdade dos acontecimentos e garantir que os direitos se sobreponham ao poder.