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#BlackLivesMatter e a força das hashtags

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Autor Mariana Mandelli Coordenadora de comunicação Sobre o autor

Ativismo antirracista nas redes é oportunidade para mobilizar contra o discurso de ódio dentro e fora delas

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O discurso antirracista tem dominado ruas, noticiários e timelines nas últimas semanas, desde o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis, no estado de Minnesota, Estados Unidos. O vídeo do sufocamento do segurança em uma operação policial viralizou nas redes sociais e foi o estopim para manifestações e campanhas virtuais.

Em uma delas, telas pretas postadas com a hashtag #blackouttuesday tomaram conta do Instagram na primeira terça-feira de junho. A ação alastrou-se como uma forma de prestar solidariedade ao Black Lives Matter (traduzido aqui como “vidas negras importam”). No entanto, a boa intenção de quem participava da iniciativa online acabou atrapalhando o movimento, já que a hashtag #BlackLivesMatter também foi usada nas postagens e fez com que os resultados da busca de quem pesquisava informações sobre ele encontrasse apenas quadros negros.

A situação foi problemática a ponto de Adam Mosseri, CEO do Instagram, pedir que os usuários da plataforma parassem de abafar as informações sobre protestos e financiamento do Black Lives Matter: “A hashtag #BlackLivesMatter agrega informações e recursos importantes para a comunidade”, postou no Twitter.

A confusão de hashtags dá um parâmetro da força do ativismo antirracista nas redes sociais – o que não é novidade. O próprio nome do Black Lives Matter surgiu de uma postagem de amigos ativistas no Facebook, em 2013, após o julgamento do vigilante George Zimmerman, absolvido por matar a tiros o adolescente negro Trayvon Martin em Sanford, Flórida.

Hoje com milhões de seguidores em seus perfis nas redes sociais, o que teve início com a viralização de uma palavra-chave poderosa já foi chamado pela revista do New York Times como “o primeiro movimento de direitos civis do século XXI”, pois ultrapassou as telas de celulares e notebooks para se consolidar como um movimento político.

Hashtags (ou palavras-chaves) são uma maneira de “etiquetar” ou indexar conhecimento e organizar informações, orientando de maneira mais certeira uma pesquisa online. É uma forma fácil de agrupar conteúdos temáticos e encontrar perfis com interesses e discussões comuns, o que é fundamental em pautas sociais como a luta antirracista e é facilmente observável nas redes.

Em 2016, quando o Twitter completou 10 anos, foi divulgada uma lista com as palavras-chave ligadas a causas mais usadas na década: em terceiro lugar, #BlackLivesMatter, publicada mais de 12 milhões de vezes; em primeiro, #Ferguson, postada mais de 27 milhões de vezes, em alusão aos protestos na cidade do Missouri ocasionados pela morte do jovem negro Michael Brown, vítima de um policial branco em 2014.

Saber usar hashtags parece algo trivial demais para o mundo conectado de hoje, mas o conflito digital causado pelas postagens durante a #blackouttuesday mostra que taguear conteúdos exige responsabilidade e leitura crítica da realidade, habilidades que são pilares da educação midiática, outra demanda urgente da nossa sociedade.

Por exemplo: saber diferenciar uma hashtag orgânica de uma movimentada por robôs, como é comum em discussões políticas especialmente no Twitter, é crucial para usá-las como verdadeiros propulsores de pressão social, despertando a curiosidade dos usuários e reforçando a presença digital de pautas relevantes para o debate público.

Isso é útil também na identificação de discurso de ódio nas redes, que muitas vezes não emerge com ofensas de baixo calão e injúrias raciais explícitas, mas em forma de deslegitimação do movimento negro por supremacistas brancos, como acontece o uso da hashtag #WhiteLivesMatter (“vidas brancas importam”).

Além disso, é importante lembrar que etiquetar conteúdos online também pode, além de desvirtuar o debate como ocorreu com o caso #blackouttuesday, gerar engajamento para algo que, na verdade, está sendo criticado. Um artigo de 2016 do Pew Research Center mostrou que, entre 2013 e 2016, o uso da hashtag #AllLivesMatter (“todas as vidas importam”) no Twitter dividiu-se igualmente entre menções positivas e negativas. Isso significa que quem estava apontando nela o apagamento das questões específicas de opressão sofrida pela população negra dos Estados Unidos acabou, contraditoriamente, endossando sua popularidade.

Filtrar tudo isso no universo digital é fundamental para tangibilizar causas e participar ativamente e de maneira cidadã da luta antirracista. É óbvio dizer que uma tragédia social como o racismo não vai se resolver por meio de hashtags, e a própria trajetória do Black Lives Matter mostra a urgência de ações práticas de desconstrução de preconceitos estruturais que aprofundam as desigualdades entre pretos e brancos em todas as esferas. Mas não se pode desprezar o poder das redes na disseminação de informação útil, na amplificação de vozes e no processo educativo das populações.

Como disse o sociólogo Manuel Castells em conversa recente com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: “É verdade que as redes sociais têm tido um efeito de corrosão da democracia, mas elas também podem ser um instrumento para estimular o debate público, a organização e a mobilização da sociedade”.

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Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

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