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Andy Warhol previu o fim da vida privada?

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Autor Alexandre Sayad Jornalista e educador Sobre o autor

É inevitável olharmos ao redor e percebermos as consequências da submersão tecnológica na sociedade.

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O artista norte-americano de pop-arte Andy Warhol ficou célebre, nos anos de 1980, por afirmar que, num futuro breve, todos os cidadãos teriam ao menos quinze minutos de fama. Warhol olhava os dilemas entre as vidas pública e privada com certa ironia. Sua arte lançou as sopas enlatadas Campbell ao estrelato, além de retratar personalidades em telas grafitadas, minimalistas e coloridas, que as transformaram em ícones de consumo imediato. 

 

Havia no gesto e na retórica uma reflexão sobre o papel dos veículos de comunicação na privacidade das pessoas (ora como deboche, ora como crítica à visão da Escola de Frankfurt) Sua arte também funciona como uma flechada “freudiana” no ego de todos nós. A contemporaneidade, sob muitos aspectos, acabou se transformando justamente em um novelo embaralhado de consumo (inclusive a arte), múltiplas tendências, hedonismo, rapidez, ultra-exposição pessoal e falta de um limite claro entre o público e privado.

 

Teria Warhol previsto o fim da vida privada? 

 

Nesse sentido, é inevitável olharmos ao redor e percebermos as consequências da submersão tecnológica na sociedade. O uso extensivo das mídias têm muitos lados; alguns são oportunidades à aprendizagem, mas há também aqueles que merecem atenção para educadores, educandos, pais e comunidade. 

 

A comunicação, matéria prima de Warhol, vive hoje uma certa distopia. Enxergando o processo tal como Lev Vygotsky e Paulo Freire, isso se reflete automaticamente na educação e em outras áreas da sociedade. Dos jovens Youtubers, ao uso extensivo das redes sociais, todos parecem mesmo querer estar sob holofotes e com as ferramentas bem à mão. 

 

Por outro lado, jamais uma mensagem pôde entregue com tamanha precisão ao receptor como os meios digitais o fazem. Pode não parecer, mas essa questão também está relacionada com a privacidade e comportamento online. Um exemplo é quando, por exemplo, procuramos um tênis novo no Google e, quase que simultaneamente, recebemos propaganda de algum em nosso email, ou mesmo sugestões de compra no Facebook.

 

Como é possível nos conhecer tão bem?

 

A divisão entre vida privada e pública é pouco nítida na internet. Há uma orquestração entre os algoritmos (o programa que faz os sites funcionarem), a inteligência artificial (os sites que aprendem com o comportamento do usuário) e o uso de dados fornecidos por nós mesmos, voluntariamente (quando preenchemos um formulário) ou não (quando navegamos, curtimos e compartilhamos). Aos poucos, deixamos rastros de preferências, gostos, informações pessoais e tendências.

 

Quanto mais nos expomos, mais ficamos vulneráveis. Os meios digitais deixaram a utopia dos anos de 1990, de tornarem-se um espaço livre e multicultural, para tornarem-se muitas vezes dominados pela lógica comercial. Nosso livre arbítrio tornou-se tão relativo quando aquele que teoricamente temos na vida real; somos de fato conduzidos em nossa navegação. 

 

Na educação há também um preço a ser pago pelo uso de tecnologia. As plataformas de personalização de ensino também são guiadas por rastros de comportamento. Ou seja, usam dados pessoais. Além disso, a dita “gratuidade”, de algumas ferramentas, é sempre relativa: pagamos o serviço com nossos dados pessoais quando, por exemplo, abrimos uma conta de numa ferramenta de transmissão de vídeo ou quando a escola distribui email gratuito aos alunos.

 

Há um acordo tácito entre serviço e usuário: “se é para facilitar a vida e não cobrar nada, pode ficar com meus dados”. 

 

A reação imediatista comum de se negar a tecnologia pode resultar em consequência desastrosas aos estudantes – que serão apartados da realidade e das possibilidades de aprendizado, trabalho e cidadania que a internet proporciona. Nesse sentido, o documentário “The Social Dilemma” (Netflix, 2020), sucesso recente, apresenta um cenário demasiado extremista e parece um tanto quanto ingênuo ao oferecer alternativas para uma vida online mais privada.

 

Há um caminho do meio para resguardar a privacidade, que perpassa dois fatores. O primeiro é a educação midiática. Prática e conceitos centenários, propõem levar ao cotidiano escolar habilidades e competências para a cidadania em tempos digitais. Há institutos, como o Instituto Palavra Aberta e a Fundação Roberto Marinho, que formam professores para desenvolvê-la dentro do escopo da BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

 

O segundo fator diz respeito à novíssima LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). Inspirada pela versão europeia, ela traça novas regras para o compartilhamento de informações entre empresas e também àquelas que podem ser solicitados ao usuário. O fornecimento do número de CPF para se acessar a internet gratuita, por exemplo,  está com os dias contados. 

 

O fato é que o futuro não é algo pronto. Uma escola considera a realidade fora do dos seus muros como a única inexorável que seus estudantes vão enfrentar, parte em vantagem. Considerar que a cidadania, as habilidades, os conhecimentos e as experiências devem ir além de seu espaço físico significa estar pronta para não só enfrentar a realidade da privacidade hoje, mas auxiliar na construção de um mundo mais ético e respeitoso. Andy Warhol mantêm assim seu farol aceso; dever de toda arte.

Foto de Alexandre Sayad

Alexandre Sayad

Jornalista e educador

Alexandre Le Voci Sayad é jornalista e educador, diretor da consultoria ZeitGeist e membro diretivo da aliança GAPMIL (de educação para a mídia da UNESCO), além de membro do conselho consultivo do projeto Educamídia (do Instituto Palavra aberta e google.org ) .Trabalha há vinte anos com temas de educação para a mídia e inovação. Cursou especialização em negócios pela Universidade da Califórnia / Berkeley e é fundador de três ONGS e duas empresas na área. É autor de livros na área, dentre eles "Idade Mídia - A Comunicação Reinventada na Escola" (Editora Aleph). Mais informações:   alexandresayad.com

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